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  1. TERCEIRO ACTO

    O enquadramento do Terceiro Acto surge a partir da obra emblemática, Sagração da Primavera, não numa perspectiva progressiva mas na falência da sua continuidade. Neste sentido, o Terceiro Acto apresenta-se como um modo de produção, uma construção sucessiva de eventos que planificam um projecto para um protagonista. Operando sobre esta figura solitária que reside no quotidiano de qualquer individuo e que vive na ânsia da procrastinação da história, interessa-nos activar os mecanismos que envolvem este mediador critico e implosivo na forma como estratifica a sua representação no mundo.

  2. Coreografia e Performance: Ana Rocha e Jorge Gonçalves

    Produção: MEZZANINE

    Residências: Academia de Dança de Matosinhos, Uferstudios e Tanzfabrik

    Agradecimentos: Diana Amaral, Barbara Friedrich e Schewelle 7

  3. Contextualização 

    A obra emblemática Sagração da Primavera insurge como ponto de partida para a construção dramatúrgica desta peça coreográfica. Não se trata de nos debruçarmos sobre um revisitar ou reinterpretar da sua partitura mas de reflectir sobre a condição com que este “documento” vem marcando a contemporaneidade e tem vido a ser recorrentemente reproduzido.

    Dado ao momento actual em que todas as propostas de caracterizar o tempo contemporâneo entram em falência devido às dificuldades de compreender o período em que vivemos, operamos sobre a mítica Sagração da Primavera no sentido de desenvolver um Terceiro Acto em forma de rascunho, perspectiva, ou ensaio. Uma construção que se baseia na formas de contemplação de uma figura solitária e nos modos de projecção da sua representação no mundo para a realização da sua própria narrativa. Enveredamos no hiato existente entre uma antevisão da nossa representação e a execução dessa mesma projecção para um futuro próximo.

    No Terceiro Acto trabalhamos entre o intérprete e o produtor, recorrendo a diferentes narrativas que esgotam os recursos que incidem sobre a ausência do corpo da criação, autoria, assinatura, rubrica, etc.. Em palco, estas duas entidades gerem e desfazem as suas relações de poder, e privilegiam a ausência de um protagonista entre símbolos e binómios. Este é operado em vazio, num estado de sitio idílico que retoma uma visão de um futuro indefinido e distingue um possível presente para sobrevivência. Na procura de uma visão realizável, o palco mantém-se e vai-se actualizando como cenário à afirmação: Eu não sou mais do que isto.

    Em progressão, vamos mediatizando este indivíduo fetichizado, produzindo-o em tempo real através de vários eventos que vão alienando o seu protagonismo para uma ausência de cena ou de palco. Para ficcionar a ausência deste corpo, aplicamos diferentes tipologias de registo, testemunho, depoimento, vestígio, etc.. Em qualquer destes recursos, o emissor opera de diferentes formas a exacerbação da ausência do outro corpo.

    O Terceiro Acto não existe na concepção de um prolongamento da dramaturgia da Sagração da Primavera, ele subsiste na ausência dessa continuidade e projecta os mecanismos que envolvem a procrastinação da História. Revela-se à superfície, oferecendo-nos a possibilidade de apresentar os seus modos de produção através das relações de poder que constituem a formulação do produto. O autor que se coloca em questão, manifesta-se pelas nossas próprias vozes, demarcando-se de uma posição absoluta para entrar num exercício de sobreposição de leituras indiscerníveis com uma escrita coreográfica que impulsionam possíveis idiossincrasias e temperamentos.